Roda do Ocaso

 

 

Diz o poeta que a vida é um sopro.

Veloz, vai-se escapando pelos dedos

buscando enfim o seu destino final.

A morte é um sono do qual você não acorda,

outro poeta já disse.

Então a morte deve ser boa.

Quem dispensa um tranquilo sono?

Mas um sono eterno? 

Sem sol a nascer?

Sem vozes a ouvir,

sorrisos sem ver,

sem da vida,o esplendor?

Um sono assim, ausências tantas…

Mas quem saberá das ausências?

Apenas dorme-se. E pronto.

O afã da vida nos levou à metafísica.

Não será  o nirvana,  ausência de todo desejo?

Não será o karma,  ponte para novo despertar?

Não será  o paraíso, a ressurreição?

Ingrata vida que nos forma,

nos molda, nos faz sentir,

olhar,

desejar,

amar,

odiar

E nos toma tudo,

e nos faz dormir sem sonhar.

Eduardo Medeiros, Rio de Janeiro, 13/03/2012



***************************************************

É engraçado que depois do nascimento do meu filho eu tenha me pegado a pensar na vida e na morte como nunca antes. Fico pensando que vê-lo crescer(o que todos nós, pais, queremos ) é também ver-me envelhecer. A alegria de vê-lo expandir-se em músculos, estatura, feições e falas, é também ver-me na roda do ocaso. 

De tão absurda, a morte foi feita nossa amiga pelas crenças do pós vida. Então, morrer, não seria o fim, mas o início ou o reinício de uma nova vida. Confesso que tenho sérios problemas com as metafísicas; sou levado, puxado, obrigado a ver a morte como uma coisa tão natural da existência como a vida. Afinal de contas, sem morte, como valorizar a vida?

Mas quem disse que isso basta? Sei que meus átomos não morrerão depois da minha morte; eles se fundirão ao ambiente e voltarão de onde saíram. E minha consciência? E os átomos que em mim, são pensantes e conscientes, o que se fará deles?

Desejo profundamente que continuem conscientes em algum lugar do universo.

Publicado também no meu blog http://www.selecoesdoedu.blogspot.com 

Publicado em Devocional, Poesias | 1 Comentário

Quatro tipos de leitura da Bíblia

Existem pelo menos, quatro tipos principais de leituras da Bíblia; em minha opinião, eles se completam e não são necessariamente, excludentes. Porém, um dos quatro tipos  se comporta como se fosse o único tipo certo e aceitável a Deus e com isso, acaba por excluir os outros como não válidos.

A abordagem fundamentalista – Aqui a fé é sinônimo de que Deus tudo pode fazer; o texto bíblico caiu do céu, veio por inspiração divina, não contém erros e não se admite uma crítica (ainda que construtiva a ele); os critérios usados são “vale o que está escrito!” pois cada palavra da Bíblia é a palavra de Deus, logo, é infalível e imutável; o objetivos é que a leitura da Bíblia leve as pessoas à conversão.

A abordagem Dogmática – Aqui a fé é aceitar a doutrina correta e sem erros; o texto bíblico é a fonte de revelação; o critério usado é a leitura iluminada pelo Espírito Santo(na tradição católica, a tradição do Magistério entra como critério de interpretação); o objetivo é demonstrar que a iluminação do Espírito levará à correta interpretação(na tradição católica, leva-se em conta a interpretação do Magistério que deve ser a mesma do Espírito).

No método Histórico-crítico e de análise literária, ter fé é ver Deus presente na História dos homens; o texto bíblico é um texto literário popular antigo, formado de velhas tradições orais que tomaram forma escrita e foram agrupados em unidades maiores; o critério usado é o espírito crítico(científico) para analisar a literatura que temos em mãos e as circunstâncias daquilo que foi escrito; o objetivo é estudar a história e a literatura para descobrir a fé das comunidades onde se originou cada escrito.

A abordagem pelos 4 lados – a fé é olhar a vida de hoje com olhos de Deus; o texto bíblico é memória subversiva dos pobres animados pela fé. Releitura das tradições populares para responder a todos os (4) lados dos problemas de cada época e situação, numa visão de fé, em conflito com a ideologia dominante; o critério usado é a realidade dos 4 lados (social, econômico, político e ideológico) que ilumina a Bíblia e é iluminada pela Bíblia; o objetivo é iluminar a nossa vida e a do mundo pelos 4 cantos. A Bíblia é luz e luz deve iluminar, não enfeitar simplesmente.

Além desses, não poderia deixar de citar o tipo psicológico, um tipo de leitura que o  doutor Levi Bronzeado, companheiro participante da Confraria Logos e Mythos faz com maestria, ressoando as obras de Freud, Lacan, Jung, Erich Fromm e outros.

 

 

 

 

 

Publicado em Uncategorized | 5 Comentários

Quando o oprimido vira opressor

 

Paulo Freire é cultuado como um dos maiores educadores brasileiros com sua abordagem original da “Pedagogia do Oprimido“(título de um de seus livros) que propõe “o universo existencial de cada aluno como temática para sua experiência conscientizadora. Substitui-se o adestramento ‘Ivo viu a uva’ por desafios cognitivos a partir do cotidiano concreto do aluno” (Amorese, 2006).

Essa abordagem pedagógica  liberta da alienação, do saber  engaiolado; assim, o oprimido seria levado a um novo nível moral que o libertaria das algemas dos “senhores-de-engenho”, das amarras dos donos do capital. Mas o que acontece quando o oprimido, o proletário, o funcionário explorado, livres enfim pela educação libertadora, chegam à posição de patrão ou ao poder? Teria ele vontade de alterar o sistema que antes o oprimiu?

Vou concordar com Rubens Amorese que diz que “não necessariamente”, pois a conscientização poderia libertá-lo da ignorância mas não poderia mudar seu coração. Sendo assim, o antes oprimido teria agora a tentação de se tornar opressor, e não foi isso exatamente o que aconteceu na história das revoluções libertárias?

Cito também Mikhail Bakunin(1814-1876, pensador russo):

“Assim, (…) chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada.  Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.

Não é exatamente o que temos visto no Brasil pós “revolução petista“? Nessa questão, também um outro grande pensador do passado que viveu bem antes de Bakunin, resumiu tudo em uma frase lapidar:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (profeta Jeremias, 17.9)

 

_______________________

Rubens Amorese é consultor ligislativo do Senado Federal e presbítero da igreja presbiteriana.

ilustração: http://www.marcelinorocha.prosaeverso.net

 

gcolor=transparent

 

 

Publicado em Uncategorized | Marcado com , , , , | 10 Comentários

Nunca engoli o Papai Noel

Engraçado, desde muito jovem eu nunca engoli papel noel, duendes, fadas, Batman…Apesar de ter sido um garoto que vivia no mundo da fantasia dos gibis de heróis e dos seriados de TV, sempre entendi que tudo isso era de “mentirinha” como minha mãe dizia, mas nunca duvidei da existência de Deus. Certamente por ter sido criado num ambiente evangélico, de pais evangélicos.

Nunca duvidei de Adão e Eva, de Noé, do dilúvio…certamente também por serem histórias fantásticas, iguais as que eu lia nos gibis e via na TV só que com uma diferença: As histórias da bíblia eram todas verdadeiras, conforme também dizia minha mãe.

Quando saí da adolescência foi que comecei a questionar a realidade de tais histórias bíblicas, mas o que era interessante é que novamente, nunca cheguei a questionar a existência de Deus…

Para mim, Deus era Deus, Adão e Eva era Adão e Eva. Com o passar dos anos, depois de ter lido muito livro sobre teologia, me formado em teologia, cheguei no meu modo de ver, à minha idade madura em relação à fé religiosa e aos dogmas. Não teve jeito, tive que desconstruir muita coisa que eu tinha como certa, como irrefutável; mergulhei nas teologias heterodoxas como o liberalismo, a teologia da libertação, a teologia do processo e até recentemente, na chamada “espiritualidade ateísta”, mas por incrível que pareça, ainda não deixei de acreditar em Deus…

Não consigo fugir dele. não consigo arrancá-lo do meu coração, da minha psiqué e da minha razão. Não, não estou dizendo isso como um lamento, mas como uma curiosidade. É claro que o “meu deus” hoje não se parece nem um pouco com o deus tribal do antigo povo israelense. Não se parece num um pouco com o deus de maomé e nem mesmo com o deus cristão. Mas tenho uma queda pelo deus de Jesus de Nazaré, galileu, líder carismático que quis dar novas interpretações à sua própria religião. Esse mesmo Jesus que você diz (erroneamente) nunca ter existido, de ser mito. Nenhum mito teria a face humana que jesus teve e os evangelhos deixam transparecer essa face humana dele, juntamente, confesso, com esse jesus-mito que você cita como inexistente e que também se encontra nos evangelhos.

Em minha opinião a Bíblia é um livro extraordinário. A obra prima do espírito humano. ali está todas as contradições dos seus autores. Gosto dela por que ele não maqueia nada. Ela não pinta o ser humano e os seus próprios heróis com cores monocromáticas; não, ali estão todas as cores juntas e misturadas resultado das ambiguidades humanas; os tons de cinzas estão sempre presentes junto com o azul celeste…

A história nos mostra que em nome de Deus muito sangue foi derramado. Muitos tronos foram tomados à espada; muitos hereges foram queimados nas fogueiras da inquisição. Deus nunca teve nada a ver com isso. Deus sofre tanto quanto eu e você ao ver os resultados da ganância humana.(se é que ele sente igual a nós, o que eu duvido mas gosto da metáfora poética).

Na verdade, não creio num deus pessoal que governa o destino do universo de forma inflexível, mas não tenho como negar que as explicações da ciência para o origem do universo e principalmente da vida inteligente na terra não satisfazem minha lógica raciona. Do mesmo modo que não engulo Adão e Eva literalmente, não engulo que milhões de acasos e acidentes cósmicos resultaram no ser humano.

Como também não engulo a cruzada do Dawnikins, Bennet e CIA contra a religião e contra Deus. O argumento que as pessoas que acreditam em Deus são iludidas, faltosos de inteligência que precisam de muletas é simplesmente ridículo. O chefe do projeto genoma que foi o maior feito da ciência em muitos anos, Collins, é um devoto cristão. Isso é só um exemplo entre milhares de outros filósofos, cientistas, intelectuais que possuem fé religiosa. Aliás, não há como arrancar o sentimento de religação que todo ser humano tem, creia ele em um deus ou não. O sentimento que você disse ter e que eu tanto apreciei:

 “…mas porque tinha nascido nesta vastidão de beleza única, e, a minha existência era importante, para o equilíbrio do todo.”

Essa frase é profundamente religiosa; tão profunda que religiosos pragmáticos dos nossos dias não podem captar.

_________________________________

Este  é um comentário(com devidas correções) que eu fiz ao excelente  texto da Luísa em https://genesiselendas.wordpress.com/2011/11/22/eu-deus-e-a-biblia/#comment-79

Publicado em Ateísmo, Religiões | Marcado com , , | 15 Comentários

Reflexões sobre a Graça

DE UMA MANEIRA GERAL, as religiões do mundo procuram agradar à divindade de algum modo, seja por oferendas ou sacrifícios. Conhecemos bem o complexo sistema sacrificial do antigo Israel no culto javista. Conhecemos os grupos cristãos modernos que se deixam crucificar ou se autoflagelam para serem participantes do sacrifício de Cristo. Sabemos de cristãos que sobem escadarias de igrejas de joelhos para agradecer ou implorar uma graça. O próprio apóstolo Paulo dizia(talvez com um indisfarçável orgulho espiritual?) que ele carregava “as marcas de Cristo” no corpo.

O Deus de Israel era(é) pessoal e moral. Ele fez um trato com o povo escolhido. O povo se obrigava a cumprir todas as ordenanças por ele prescritas(morais e cúlticas) e ele se comprometia a abençoar o povo na medida em que o povo cumprisse suas exigências. Era uma troca, “faça isso que eu te dou isso”. A lista de “bençãos e maldições” de Deuteronômio nos mostra isso. Lá está escrito que se o povo cumprisse “fielmente ao Senhor, o seu Deus e seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos(…)” Deus faria que todos seus inimigos fossem derrotados. Encheria os celeiros e as colheitas; concederia grande prosperidade; enviaria chuva na hora certa, não haveria seca; seria um povo que emprestaria a muitas nações mas não precisaria tomar emprestado.

Eram bençãos muito boas. Mas tinha a contra-parte. “Entretanto, se vocês não obedecerem ao Senhor, o seu Deus(…)” e aqui vem a interminável lista de desgraças, doenças, pobreza, derrotas. A lista de “maldições” é bem maior que as das “bençãos”. Vejamos algumas palavras ditas “pelo Senhor Deus”:

“O Senhor os encherá de doenças até bani-los da terra(…)o Senhor os ferirá com doenças devastadoras, febre e inflamação, seca, ferrugem e mofo, que os infestarão até que morram”.

“O Senhor fará que vocês sejam derrotados pelos inimigos(…)”

“Vocês comerão o fruto do seu próprio ventre”(ou seja, fezes)

“Se vocês não seguirem fielmente todas as palavras desta lei, escritas neste livro, e não temerem este nome glorioso e terrível, o Senhor, Teu Deus, ele enviará pestes terríveis sobre vocês e sobre os seus descendentes, desgraças horríveis e prolongadas…”

E o texto de Deuteronômio28 prossegue com as terríveis advertências. Mas agora vem o ponto central do qual gostaria de refletir. O cristianismo é a única religião onde a divindade não pede para que o devoto cumpra alguma obrigação moral ou ritual para que receba graça ou “seja salvo”. O conceito de Graça é um conceito elevado que só tem no cristianismo. Mas a própria doutrina da graça não deixa de ser ambígua nas palavras do seu principal construtor, o apóstolo Paulo.

Ele nos informa que Deus nos justifica não pelas obras da Lei(aquelas sobre as quais viriam as maldições se não fossem cumpridas diligentemente) mas simplesmente pelo fato de aceitarmos o sacrifício de Jesus Cristo por fé. Isso é revolucionário! O cristão não está obrigado a decorar uma longa lista de regras morais para cumpri-las, já que a Graça lhe é, de graça…não exige pagamento. Nem esforço, nem sacrifícios nem oferendas.

Mas existe um problema: nós achamos a Graça sem graça...pensamos que apesar da Graça, não é possível que Deus não nos exija uma correção moral e o nosso sacrifício em “levar a cruz”. Gostamos de “fazer a obra do Senhor” pois Deus recompensa a quem se gasta em sua “obra”. Dizemos que precisamos “ofertar e pagar o dízimo” pois senão, Deus não nos tratará com Graça, mas com a des-graça do Devorador.

E não é paradoxal (é mesmo ou é minha leitura equivocada?) que o “Apóstolo da Graça” tenha citado a história do antigo Israel como exemplo para os cristãos da graça? Ele lembra que israel esteve debaixo “da nuvem” no deserto, foram “batizados em Moisés”, comeram da comida espiritual, mas que Deus não se agradou da maior parte deles por isso, seus corpos foram espalhados no deserto. E o apóstolo diz que tais coisas aconteceram como exemplos para que os cristãos não cobiçassem as “coisas más”: idolatria, prostituição, murmuração; ele lembra que aquele que está de pé cuide para que não caia e afirma que Deus não deixará que cristãos sejam tentados acima do que podem suportar. (1 Cor 10 1-13).

Tudo isso me parece destoar da Graça que não impõe regras, mas que acolhe independentemente de se estar caído ou não. Paulo ainda diz que Deus junto com a tentação, daria também o escape da tentação para que a tentação pudesse ser suportada. Essa afirmação não seria equivocada, já que cristãos sinceros estão sempre “caindo em tentação”? E tendo caído, eles devem olhar para um Deus gracioso ou para um Deus que deixou seu povo morrer no deserto?

Philip Yancey escreveu que

“Cresci com a imagem de um Deus matemático que pesava meus atos bons e maus em um conjunto de balanças e sempre me considerava em falta.(…) Graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais(…) E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos – nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus, já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar.”

Diz ainda que

“Atualmente, o legalismo mudou de foco. Em uma cultura totalmente secular, a igreja está mais inclinada a demonstrar falta de graça por meio de um espírito de superioridade moral  ou uma atitude violenta para com os oponentes na ‘guerra cultural’ “. (1)

Afinal de contas, sabemos o que de fato é a Graça? Ou será que diferentes cristãos possuem diferentes concepções dela? Se nada podemos fazer para que Deus nos ame mais, por que as pregações evangélicas ainda são tão carregadas de preceitos morais, tipo, “se você beber cerveja, isso lhe trará o castigo de Deus”; ou “Se você fizer sexo antes do casamento com sua noiva, Deus não terá obrigação de abençoar o futuro casamento, pois o que começa errado, termina errado” ?

Já ouvi muito essas frases e poderia escrever várias outras com o mesmo teor que tenho ouvido nesse meu caminhar cristão de trinta anos.

Afinal de contas, o que é a Graça?

Volta ainda a este tema.

________________________

(1) Philip Yancey, “Maravilhosa Graça”, Ed Vida

Yancey trata também neste livro, sobre os perigos de se usar a graça de forma equivocada, mas tenho algumas indagações sobre essa parte do livro que futuramente, poderei tratar aqui.

Publicado em Graçã | Marcado com , , , | 22 Comentários

A morte expiatória de Jesus

Achei o último comentário do Doni interessante, por isso, vou postá-lo aqui para que a discussão sobre o tema possa continuar.

___________________

(Rm 3:23-26) ” Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela REDENÇÃO que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para PROPICIAÇÃO pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela REMISSÃO dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua JUSTIÇA neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.”

É difícil digerir a idéia do Rubem pelo simples fato, de não encontrarmos um significado tal a estas palavras em destaque, que não seja transmitir o conceito de expiação.

Durante o período patrístico, de fato, a ênfase não repousava no sacrifício da cruz. Naquele período a ótica era a preexistência e a encarnação. Mas isso se dava pela simples razão deles polarizarem a salvação apenas na dimensão da alma em detrimento do corpo. E com isso relegavam também a ressurreição.

A igreja ocidental por sua vez, focaliza o fim da vida de Jesus, seu sofrimento e morte. É lógico que esta noção também teve seus efeitos colaterais, como por exemplo; levar a pessoa a procurar a pobreza e o sofrimento como sendo virtudes sine qua non para ser herdeiro do reino.

Num outro pólo tem essa ênfase no ministério da vida terrena de Jesus. Nesse conceito descarta o elemento metafísico da divindade de Jesus, e ao mesmo tempo em que o sofrimento e morte é relegado como sendo inadequado. E nesta progressão acaba-se concluindo que o próprio Cristo se tornou desnecessário, no sentido de ter se tornado apenas um exemplo de abnegação.

Por isso à necessidade de uma hermenêutica não fragmentada da soteriologia. Temos que ter uma visão do Cristo Total, Nascimento, vida, morte vicária, ressurreição e parousia. Se tirarmos um desses elementos da soteriologia, ela se tornará sem sentido. Todos esses elementos devem atuar simbioticamente, para que o processo da redenção seja levado ao efeito.

Publicado em Teologias | 30 Comentários

Edifício em ruínas

 

 

um texto de Rubens Alves, psicanalísta, teólogo, professor

 

Lembro-me, com nítida precisão, do momento em que tive a percepção intelectual que libertou a minha razão para pensar. Eu estava no seminário. Repentinamente, com enorme espanto, percebi que todas aquelas palavras que outros haviam escrito no meu corpo, não haviam caído do céu. Se não haviam caído do céu, elas não tinham o direito de estar onde estavam. Eram demônios invasores. Abriram-se-me os olhos e percebi que essa monumental arquitetura de palavras teológicas que se chama teologia cristã se constrói, toda, em torno da ideia do inferno. Eliminado o inferno, todos os parafusos lógicos se soltariam, e o grande edifício ruiria.

A teologia cristã ortodoxa, católica e protestante, excetuada a dos místicos e hereges, é uma descrição dos complicados mecanismos inventados por Deus para salvar alguns do inferno, sendo o mais extraordinário desses mecanismos o ato de um Pai implacável que, incapaz de simplesmente perdoar gratuitamente (como todo pai humano que ama sabe fazer), mata o seu próprio Filho na cruz para satisfazer o equilíbrio de sua contabilidade cósmica. É claro que quem imaginou isso nunca foi pai. Na ordem do amor, são sempre os pais que morrem para que o filho viva.

 Hoje, as ideias centrais da teologia cristã em que acreditei nada significam para mim: são cascas de cigarra, vazias. Não fazem sentido. Não as entendo. Não as amo. Não posso amar um Pai que mata o Filho para satisfazer sua justiça. Quem pode? Quem acredita? Mas o curioso é que continuo ligado a essa tradição. Há algo no cristianismo que é parte do meu corpo. Sei que não são as ideias. Que ficou, então?

 Foi numa Sexta-Feira da Paixão que compreendi. Uma rádio FM(Amparo) estava transmitindo, o dia inteiro, músicas da tradição religiosa cristã. E eu fiquei lá, assentado, só ouvindo. De repente, uma missa de Bach, e a beleza era tão grande que fiquei possuído e chorei de felicidade: “A beleza enche os olhos d’água” (Adália Prado). Percebi que aquela beleza era parte de mim. Não poderia jamais ser arrancada do meu corpo. Durante séculos, os teólogos, seres cerebrais, haviam se dedicado a transformar a beleza em discurso racional. A beleza não lhes bastava. Queriam certezas, queriam a verdade. Mas, os artistas, seres coração, sabem que a mais alta forma de verdade é a beleza. Agora, sem a menor vergonha, digo: “Sou cristão porque amo a beleza que mora nessa tradição. As ideias? Chiados de estática, ao fundo…” Assim, proclamo o único dogma da minha teologia cristã erótico-herética: “Fora da beleza não há salvação…”

 

Publicado em Teologias | 27 Comentários