Nunca engoli o Papai Noel

Engraçado, desde muito jovem eu nunca engoli papel noel, duendes, fadas, Batman…Apesar de ter sido um garoto que vivia no mundo da fantasia dos gibis de heróis e dos seriados de TV, sempre entendi que tudo isso era de “mentirinha” como minha mãe dizia, mas nunca duvidei da existência de Deus. Certamente por ter sido criado num ambiente evangélico, de pais evangélicos.

Nunca duvidei de Adão e Eva, de Noé, do dilúvio…certamente também por serem histórias fantásticas, iguais as que eu lia nos gibis e via na TV só que com uma diferença: As histórias da bíblia eram todas verdadeiras, conforme também dizia minha mãe.

Quando saí da adolescência foi que comecei a questionar a realidade de tais histórias bíblicas, mas o que era interessante é que novamente, nunca cheguei a questionar a existência de Deus…

Para mim, Deus era Deus, Adão e Eva era Adão e Eva. Com o passar dos anos, depois de ter lido muito livro sobre teologia, me formado em teologia, cheguei no meu modo de ver, à minha idade madura em relação à fé religiosa e aos dogmas. Não teve jeito, tive que desconstruir muita coisa que eu tinha como certa, como irrefutável; mergulhei nas teologias heterodoxas como o liberalismo, a teologia da libertação, a teologia do processo e até recentemente, na chamada “espiritualidade ateísta”, mas por incrível que pareça, ainda não deixei de acreditar em Deus…

Não consigo fugir dele. não consigo arrancá-lo do meu coração, da minha psiqué e da minha razão. Não, não estou dizendo isso como um lamento, mas como uma curiosidade. É claro que o “meu deus” hoje não se parece nem um pouco com o deus tribal do antigo povo israelense. Não se parece num um pouco com o deus de maomé e nem mesmo com o deus cristão. Mas tenho uma queda pelo deus de Jesus de Nazaré, galileu, líder carismático que quis dar novas interpretações à sua própria religião. Esse mesmo Jesus que você diz (erroneamente) nunca ter existido, de ser mito. Nenhum mito teria a face humana que jesus teve e os evangelhos deixam transparecer essa face humana dele, juntamente, confesso, com esse jesus-mito que você cita como inexistente e que também se encontra nos evangelhos.

Em minha opinião a Bíblia é um livro extraordinário. A obra prima do espírito humano. ali está todas as contradições dos seus autores. Gosto dela por que ele não maqueia nada. Ela não pinta o ser humano e os seus próprios heróis com cores monocromáticas; não, ali estão todas as cores juntas e misturadas resultado das ambiguidades humanas; os tons de cinzas estão sempre presentes junto com o azul celeste…

A história nos mostra que em nome de Deus muito sangue foi derramado. Muitos tronos foram tomados à espada; muitos hereges foram queimados nas fogueiras da inquisição. Deus nunca teve nada a ver com isso. Deus sofre tanto quanto eu e você ao ver os resultados da ganância humana.(se é que ele sente igual a nós, o que eu duvido mas gosto da metáfora poética).

Na verdade, não creio num deus pessoal que governa o destino do universo de forma inflexível, mas não tenho como negar que as explicações da ciência para o origem do universo e principalmente da vida inteligente na terra não satisfazem minha lógica raciona. Do mesmo modo que não engulo Adão e Eva literalmente, não engulo que milhões de acasos e acidentes cósmicos resultaram no ser humano.

Como também não engulo a cruzada do Dawnikins, Bennet e CIA contra a religião e contra Deus. O argumento que as pessoas que acreditam em Deus são iludidas, faltosos de inteligência que precisam de muletas é simplesmente ridículo. O chefe do projeto genoma que foi o maior feito da ciência em muitos anos, Collins, é um devoto cristão. Isso é só um exemplo entre milhares de outros filósofos, cientistas, intelectuais que possuem fé religiosa. Aliás, não há como arrancar o sentimento de religação que todo ser humano tem, creia ele em um deus ou não. O sentimento que você disse ter e que eu tanto apreciei:

 “…mas porque tinha nascido nesta vastidão de beleza única, e, a minha existência era importante, para o equilíbrio do todo.”

Essa frase é profundamente religiosa; tão profunda que religiosos pragmáticos dos nossos dias não podem captar.

_________________________________

Este  é um comentário(com devidas correções) que eu fiz ao excelente  texto da Luísa em https://genesiselendas.wordpress.com/2011/11/22/eu-deus-e-a-biblia/#comment-79

Sobre Eduardo Medeiros

O sentimento religioso não se confunde com a teologia. Deus é uma necessidade mas somente podemos concebê-lo através de imagens da linguagem. As imagens não são Deus, mas precisamos das imagens para perguntar sobre Deus.
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15 respostas para Nunca engoli o Papai Noel

  1. Franklin Rosa disse:

    Edu, que texto lindo meu mano e que traz pacificação para os dilemas não resolvidos que a mentalidade religiosa insiste em defender ainda que seja na base do “me engana que eu gosto” ou “continua me estruprando intelectualmente que o meu fetiche é apanhar na consciência”.

    Cara sou fã de um personagem bíblico que para muitos é sinônimo de fracasso mas que para mim é um ícone da hombridade e honestidade reunidas em um reles mortal: “TOMÉ”.

    Sou fã desse cara porque até pra duvidar num ambiente onde a fé vazava pelos poros o cabra tinha que ser macho pra não dissimular e vestir uma máscara para não ficar por baixo.

    Velho, percebo em vc uma sensibilidade e honestidade que é confundida por aqueles que não te discernem como “incredulidade” ou “ateísmo”, mas que para mim é a mais pura verdade de alguém que não foge dela seja quais forem os créditos ou débitos a serem computados em sua reputação.

    Mano, sou seu fã pelo espírito democrático com que encara as variáveis em relação a crença e esse texto só reforça minha opinião.

    Merry Christmas Nobre Herege Mor!!! Ho, ho, ho!!!

  2. Na verdade, não creio num deus pessoal que governa o destino do universo de forma inflexível,

    Eu também não, Edu

    Às vezes sonho com o rígido velho de barba branca (Javé ?, Papai Noel?)

    Mas entendo que tudo é ressonância do que ficou gravado no meu inconsciente, desde os tempos de criança. Essas elucubrações oníricas não me assustam mais. (rsrs)

    Contudo, demos graças, por estas imagens indeletáveis do nosso porão de memórias. Sem elas não sentiríamos a prazerosa NOSTALGIA do tempo da “santa inocência”. (rsrs)

  3. Luísa L. disse:

    Boa tarde, Edu!

    Ah,é muito mais do que 20% a diferença entre nós… 😛

    Não considero que a minha citação,

    “…mas porque tinha nascido nesta vastidão de beleza única, e, a minha existência era importante, para o equilíbrio do todo.”

    seja uma frase profundamente RELIGIOSA. Quanto muito é uma frase ESPIRITUAL. E de modo nenhum a ESPIRITUALIDADE pessoal poderá ser confundida com religiosidade, ou ser considerada algo que pertence apenas aos religiosos.

    Para mim, deus é algo inexistente. O meu cérebro não o consegue conceber enquanto criador ou algo maior que a natureza (entenda-se natureza como o todo, o universo onde vivemos). Quanto à bíblia, estou a ler ainda o AT. Até agora, vi apenas uma escrita medíocre, se a compararmos com a poesia épica grega; um conto com quebras e contradições que lhe roubam a sequência. Nada mais. Mas estou a preparar um artigo sobre Genesis 1 e 2, para colocar as minhas dúvidas. Quando estiver pronto gostaria de ter a tua opinião e correcções de interpretação, pois confio no teu juízo.

    Grande abraço e muito obrigada pelo teu excelente comentário! 🙂

  4. Eduardo Medeiros disse:

    Franklim, meu amigo, obrigado pelas palavras.

    Emocionei…rsss

  5. Eduardo Medeiros disse:

    Levi,

    É isso; a nostalgia é mesmo prazerosa. rss

  6. Eduardo Medeiros disse:

    Luísa,

    É mais de 20%, né?…rsss

    Tudo bem, “espiritual” é um termo melhor do que “religioso” no seu caso. Mas por “religioso” eu queria dizer exatamente isso, “espiritual”.

    Eu também não concebo um deus que esteja fora do universo como criador. Mas eu acredito numa criação. Acredito que desde o primeiro nanosegundo depois do Big Bang(se é que de fato, começou assim a nossa aventura) a existência caminharia inexoravelmente para a vida inteligente e consciente e para tudo mais.

    Sei que essa é uma afirmação que não pode ser analisada pela metodologia científica, mas e daí? o problema não é meu e sim, do método cientifica…rss

    Vejo uma certa “consciência” no universo que direciona a matéria sempre para frente, sempre evoluindo, sempre descartando o que não deu certo e prosseguindo para um alvo determinado. Não sei se posso chamar isso de Deus, mas o sentimento que esse processo imprimiu em nossa psiqué é inquestionável.

    Sobre o Antigo Testamento, é bom que você saiba que os seus livros não são obras de um único autor de uma única época. O Pentatêuco(5 primeiros livros), por exemplo, possui pelo menos 4 tradições de narrativas, daí você perceber as interrupções, as duplicatas e até as contradições. Mas é exatamente por isso que eu a considero um livro fenomenal. Não um livro divino, mas um livro profundamente humano cujo o divino é um dos personagens principais.

    valeu, o que estiver ao meu alcance, compartilho com você com muito prazer. beijos

    • Luísa L. disse:

      Meu amigo, na minha opinião, nada sobre o surgimento do universo pode ser cientificamente provado, pelo menos para já. Tanto o moderno Modelo Ecpirótico, como o Big Bang, como os multiuniversos (Big Bang – Big Crunch), ou outras que possam surgir, são apenas teorias – Possibilidades Científicas – que não deixam de ser lógicas e fazer sentido, atendendo aos parcos conhecimentos dos homens do Sec. XXI.

      Acredito que daqui a 10 ou 20 mil anos já tenhamos capacidade de esclarecer o assunto. Não me choca nada que no Séc. VIII a.e.c. ou VII a.e.c., ou mesmo no Séc XVI d.e.c., os homens acreditassem numa criação divina, pois os seus conhecimentos não os deixavam ir mais longe e a sua necessidade de explicações era tão grande como a nossa actualmente. O que não consigo perceber de todo é que hoje, em 2011, haja quem queira – e faça questão – de ficar parado na Bíblia a exaltar conhecimentos e valores, de povos que ainda estavam sair da Idade do Bronze. Naturalmente não me refiro a religiosos de mente aberta, que de alguma forma aceitam “diferenciar as águas”.

      Vou continuar a ler a bíblia e claro, tenho em conta que ela foi escrita a muitas mãos. Em épocas diferentes. Isso apenas justifica a quebras e contradições…

      Grande abraço e obrigada pela disponibilidade.

  7. Donizete disse:

    Edu,

    Ainda bem que você teve a sensibilidade de publicar com nível de postagem esse seu comentário feito a Luísa.

    Conforme suas próprias palavras, em sua formação, você bebeu de várias fontes teológicas e filosóficas.

    Posso estar enganado, mas parece que existe um residual de cada uma dessas confissões em sua cosmovisão. O que é interessante!

    Abraços!

  8. Mariani Lima disse:

    EDUARDO, TEXTO FOFO! RS,,,
    Q IMPORTA A IMAGEM QUE VC FAZ DE DEUS, ELE SONDA MESMO OS CORAÇÕES E AS INTENÇÕES. SOMOS PARECIDOS NESSA COISA DE DESACREDITAR DE MUITAS COISAS QUE ENVOLVEM A FÉ E NÃO DEIXAR DE ACREDITAR EM DEUS.

    DESCULPE NÃO TER VINDO ANTES, EU PENSEI QUE VC TIVESSE FICADO SÓ COM O OUTRO BLOG. SÓ HJ VI O LINK LÁ NA CONFRARIA.

  9. Eduardo Medeiros disse:

    Luísa,

    sobre o que você escreveu,

    “O que não consigo perceber de todo é que hoje, em 2011, haja quem queira – e faça questão – de ficar parado na Bíblia a exaltar conhecimentos e valores, de povos que ainda estavam sair da Idade do Bronze. Naturalmente não me refiro a religiosos de mente aberta, que de alguma forma aceitam “diferenciar as águas”.

    Eu concordo com você. Mas veja que nem mesmo os sábios judaicos pretenderam que a Torá fosse algo fossilizado no tempo. A cada época, a cada novo desafio, a cada nova pergunta, eles reinterpretavam e reinterpretavam o que já tinham reinterpretado; dái toda vasta obra dos sábios judaicos reunidos no Talmud, nos Midraxes e demais livros da cultura judaica.

    Muitos cristãos ortodoxos de hoje, precisam aprender com esses sábios judeus do passado.

    beijos

  10. Eduardo Medeiros disse:

    Doni,

    não poderia ser diferente, não é? Creio que com você acontece a mesma coisa…rs

  11. Eduardo Medeiros disse:

    Mari,

    valeu, você nunca está atrasada…rsss é que as postagens por aqui serão mesmo um pouco espaçadas.

    Concordo é claro, com seu comentário. beijos

  12. Donizete disse:

    Edu,

    Estamos meio que em recesso. Natural tirar um pouco o pé no fim de cada ano!
    Mas entraremos com força total em Janeiro.

    O ano foi positivo para mim em termos de aprendizado teológico. Isso em partes, deve-se as nossas sempre prazerosas discussões. Sou teu aluno à tempos, amigo.

    Feliz Natal para você e toda a sua Família. BOAS FESTAS!

  13. Edu,

    Desejo a você e toda sua família, um 2012 repleto de paz, saúde e prosperidade.
    Que continuamos crescendo na graça e no conhecimento do nosso Deus.

    Abração!

  14. Caro amigão

    Quero desejar a você e aos seus, um venturoso 2012.

    Visitar os seus blogs, para mim, foi imensamente gratificante. Aprendi muito com os seus lúcidos textos, especialmente os seus abalizados comentários.

    Espero, em 2012, continuar aplacando a minha sede no poço dos teus conhecimentos “ultra-hetero-herético-ecumênico-religiosos”. (rsrs)

    Que 2012 seja um anão abençoado pelos deuses (rsrs)

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