Quando o oprimido vira opressor

 

Paulo Freire é cultuado como um dos maiores educadores brasileiros com sua abordagem original da “Pedagogia do Oprimido“(título de um de seus livros) que propõe “o universo existencial de cada aluno como temática para sua experiência conscientizadora. Substitui-se o adestramento ‘Ivo viu a uva’ por desafios cognitivos a partir do cotidiano concreto do aluno” (Amorese, 2006).

Essa abordagem pedagógica  liberta da alienação, do saber  engaiolado; assim, o oprimido seria levado a um novo nível moral que o libertaria das algemas dos “senhores-de-engenho”, das amarras dos donos do capital. Mas o que acontece quando o oprimido, o proletário, o funcionário explorado, livres enfim pela educação libertadora, chegam à posição de patrão ou ao poder? Teria ele vontade de alterar o sistema que antes o oprimiu?

Vou concordar com Rubens Amorese que diz que “não necessariamente”, pois a conscientização poderia libertá-lo da ignorância mas não poderia mudar seu coração. Sendo assim, o antes oprimido teria agora a tentação de se tornar opressor, e não foi isso exatamente o que aconteceu na história das revoluções libertárias?

Cito também Mikhail Bakunin(1814-1876, pensador russo):

“Assim, (…) chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada.  Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.

Não é exatamente o que temos visto no Brasil pós “revolução petista“? Nessa questão, também um outro grande pensador do passado que viveu bem antes de Bakunin, resumiu tudo em uma frase lapidar:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (profeta Jeremias, 17.9)

 

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Rubens Amorese é consultor ligislativo do Senado Federal e presbítero da igreja presbiteriana.

ilustração: http://www.marcelinorocha.prosaeverso.net

 

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Sobre Eduardo Medeiros

O sentimento religioso não se confunde com a teologia. Deus é uma necessidade mas somente podemos concebê-lo através de imagens da linguagem. As imagens não são Deus, mas precisamos das imagens para perguntar sobre Deus.
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10 respostas para Quando o oprimido vira opressor

  1. A primeira coisa que “oprimidos petistas” (são só petistas?) fizeram quando chegaram ao poder foi repartir o butim com os seus, de forma atabalhoada, indigna e perversa.. Erraram, com o agravante ― o de tentar encobrir suas transações corruptas, ao se arvorarem como o bastião da ética e da moral.

    Ainda permanecem tentando enganar aqueles que os elegeram, querendo passar para às massas , que não houve essa coisa de formação de quadrilha para assaltar os cofres públicos. Os antigos “oprimidos”, agora, estão a pressionar ou cooptar até juízes do STF.

    Mas refletindo bem, qual o grupo de oprimidos que chegou ao poder, e não passou para o outro pólo: o de opressor?. Os grupos de Fidel, Chaves, Evo Morales, começaram lá de baixo. A lista é grande.(rsrs)

  2. Anônimo disse:

    Edu, essa é uma verdade que se encaixa perfeitamente nos movimentos da religião, mais especificamente na cristã evangélica, como já presenciei durante os anos de vivência nesse ambiente.

    • Ro disse:

      Anônimo…tava pensando exatamente neste exemplo a poderosa indústria dizimista cristã.Eles sim… representam esta máxima :”Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor ( ou defendê-lo)”-Paulo Freire,
      Em tempo…me doeu ler o nome do educador Paulo freire neste texto.Coitado deve ter se revirado no túmulo!

  3. Franklin Rosa disse:

    Edu, essa é uma verdade que se encaixa perfeitamente nos movimentos da religião, mais especificamente na cristã evangélica, como já presenciei durante os anos de vivência nesse ambiente.

    • Eduardo Medeiros disse:

      Kilim, de fato é verdade. Vi também isso acontecer no meio militar de onde sou oriundo. Quando um sargento passava no concurso para ser oficial, ele já levantava o nariz para os antigos companheiros.

  4. Donizete disse:

    Poxa Edu,

    Se Amorese estiver com a razão, e acredito que ele está, estamos pegos!

    Eu que sempre alimento a esperança de que um dia a UTOPIA Marxista vire TOPIA, posso desistir de vez.

    Já que citastes Jeremias, vai outro verso para afundar de vez:

    “Será que o etíope pode mudar a sua pele? Ou o leopardo as suas pintas? Assim também vocês são incapazes de fazer o bem, vocês que estão acostumados a praticar o mal.”
    Jeremias 13:23

  5. Mariani Lima disse:

    Edu, esse é o homem. Ditado popular certo: Quer conhecer um cabra, dê poderes a ele.
    Abraços. Fica com Deus!

  6. Klas disse:

    Parece que você não entendeu muito bem…

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